domingo, 27 de dezembro de 2009

O que eu to fazendo aqui?

Um dia desses eu entrei no blog de um amigo e gastei um bom tempo lendo o o que tinha por lá. Depois de gastar uma meia hora, me peguei pensando em como as coisas tomam um rumo diferente e você acaba por não notar. Há alguns anos, quando decidi criar esse blog, eu adorava escrever, acho que foi uma maneira que eu encontrei de não me sentir tão só. E agora, cá estou, vendo que passei no mínimo uns dois anos sem sequer me lembrar que isso existe. Acho isso extremamente engraçado, pois o que deveria me servir como uma ocupação acabou no fundo do baú, como sempre acontece. Pessoas surgem e desaparecem na sua vida e você acaba por não perceber, às vezes porque estamos sempre preocupados com o nosso mundo particular, ou porque simplesmente passou sem significar nada. Sinto falta da época em que eu costumava perder as tardes escrevendo minhas besteiras, lendo Clarice horas a fio ou ainda fotografando. Como era bom. Que seja, passou. Acho que vou voltar a escrever algumas coisas aqui, mesmo que ninguém queria ler.
Até algum dia.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Peixe cru.

Acordava todo dia às 5 da manhã. Olhava pro céu, ainda escuro, criava coragem e enfim levantava, como se estivesse pagando alguma penitência. Tomava banho, se vestia, comia e saía de casa, esperando nada mais do que havia esperado do dia que passou. Tinha um costume que preservava desde criança: olhava pela janela do carro a vida das pessoas, notava os mínimos detalhes, como se vestiam, como andavam, como eram seus olhares, e tentava imaginar a vida delas, casa, comida, filhos, irmãos, paixões, tristezas, amor. Mas ela não conseguia apenas observar, ela queria dar um jeito naquilo, porque ao contrário do que acontece com todos, os problemas dela eram o mesmo que suco de maracujá adoçado, mas os dos outros, ah sim, esses eram os que importavam. Seguia todo dia a mesma rotina, nada mudava, pessoas entravam e saíam, deixando tudo sempre no mesmo lugar, intacto. E ela? Ela chorava, ela sofria, mas sabia que a razão sempre era mais importante, e quanto aos seus sentimentos, que a vida os levasse pra onde quisesse, ela sabia que existiam coisas mais importantes que aquilo. Olhava para os outros não com um olhar de inveja, mas apenas desejando ser daquele jeito, ter uma vida com sal. Só que a vida nem se importava com isso, e que todos os dias fossem sempre os mesmos, sem gosto, sem forma, sem cor, que nem peixe cru.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Areia e Café

Era uma manhã triste, amarelada, com cheiro de chuva. Bachelorrette estava sentada em uma das poltronas de sua enorme sacada, como fazia todos os dias. Acordava, se penteava, vestia a roupa mais limpa que tinha em seu velho guarda-roupa e caminhava até a sua fresca varanda, onde esperava que alguma de suas criadas lhe trouxesse sua costumeira refeição matinal: café e torradas com geléia de amoras. Ela passava o começo da manhã ali, sozinha, apreciando seu café e olhando para o enorme jardim que cercava a sua casa. Inúmeros quartos, mas que careciam de gente, um jardim tão bonito que até doía na vista, tanta gente trabalhando, lustrando, limpando, arrumando uma casa onde apenas uma pessoa morava. Era uma casa enorme: dois andares, tinha um salão de baile dono de tamanha beleza, mas que poucos conheciam; possuía pinturas extraordinárias, obras de arte belíssimas, cristais para todos os lados, uma casa que fazia com que qualquer um, mesmo involuntariamente, voltasse aos tempos de reis e rainhas da bela França. Era uma herança de família, havia sido construída na época que Luís XIV ainda reinava no Palácio de Versalhes, na época do requinte, dos laços e fitas.
Já havia se passado tanto tempo desde que Bachelorrette tinha nascido naquele palácio, tanto tempo. Era filha de uma das mais nobres famílias francesas, teve tudo do bom e do melhor durante toda a vida: os melhores vestidos, as mais belas festas, a companhia dos mais nobres membros da burguesia, era grande conhecedora de música, canto, desenho, dança, idioma moderno, e ainda era dona de uma beleza irrefutável. Era a mulher com que qualquer homem desejaria passar o resto dos seus dias.
Se casou aos 15 anos, com um duque holandês, Juan, de quem só se separou quando a morte bateu-lhes à porta. 45 anos de casamento, um amor que não acabaria de jeito nenhum, pois mesmo que ele não estivesse mais presente em corpo, viveria com ela para sempre, ainda que fosse só em seus pensamentos. Ela não conseguiria jamais superar isso, mesmo sabendo que esse dia haveria de chegar, e que quando isso acontecesse, ela teria que aceitar e se prender a única coisa que lhe restava: seus filhos. Com a morte de seu marido, Bachelorette decidiu que iria embora para o palácio que seus pais tinham lhe deixado como herança, e foi ali que passou os 10 anos que se seguiram. Ela sentia uma dor incontrolável pela a falta do marido e pela ausência dos seus filhos, que sempre estavam ocupados demais para visitá-la.
Sentada ali, naquela poltrona, ela sentiu as lágrimas virem aos seus olhos e molharem seu rosto. Levantou-se e foi caminhando até o jardim, era uma saudade tão grande a que ela sentia, algo tão desesperador. Sentou no meio do jardim, sujando o belo vestido de areia, olhou para as rosas que a cercavam, pegou uma delas e apertou-a com tanta força que o sangue brotou de sua pele. Ela sabia que não tinha mais muito tempo, que era questão de alguns minutos para a vida esvair-se do seu corpo e então, com o resto de forças que lhe sobravam ela pegou o caule a rosa e escreveu na areia: “agora é tarde demais”. Encostou a cabeça no chão; podia até ouvir o barulho da areia abrindo caminho para o seu corpo e enfim fechou os olhos. A senhora Bachelorrette havia deixado de ser.